Por que o Pix contraria interesse das big techs?

O governo americano anunciou a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil nesta terça-feira, 15. Um dos pontos se destacou: o interesse em apurar supostas irregularidades na adoção do Pix, mais popular método de pagamento no país e usado por 3 em cada 4 brasileiros.

Por trás dessa ofensiva estaria o interesse de big techs dos Estados Unidos, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

A medida do governo Trump, anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, ou USTR na sigla em inglês, afirma que o pix poderia estar prejudicando empresas americanas que atuam no setor de pagamentos.

O órgão afirma que o Brasil "parece envolver-se em uma série de práticas desleais em relação aos serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a promover seu serviço de pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo".

A ordem de investigar partiu do presidente americano Donald Trump e já era esperada — tinha sido mencionada na carta divulgada por ele na semana passada, em que ameaçou impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.

Trump, em justificativa, mencionou o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estar sendo alvo de um processo judicial que ele classificou como uma "caça às bruxas" e um suposto déficit na relação comercial entre Brasil e os Estados Unidos, que o governo brasileiro nega.

Desenvolvido na gestão do ex-presidente Michel Temer (MDB) e lançado em 2020, na gestão Bolsonaro (PL), o Pix tem hoje mais de 170 milhões de usuários.

Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, as medidas seriam uma forma de proteger as big techs e serviços de pagamentos americanos.

"Estamos falando aqui de uma competição tecnológica, onde os EUA visam tirar qualquer tipo de tecnologia que possa oferecer algum tipo de inovação e que não esteja sendo gerida dentro do próprio país ou que não esteja sob controle dos EUA", diz Bruna Martins dos Santos, gerente de políticas e advocacy da Witness, organização internacional sem fins lucrativos focada em tecnologia e direitos humanos.

"A gente sabe que o Pix é um método de pagamento extremamente inovador e relevante para o contexto brasileiro, com grandes níveis de adesão. De nenhuma maneira ele deveria ser visto como uma prática desleal de serviço de pagamento eletrônico."

O que mais machuca as big techs é que o sistema do Pix funciona bem'

O professor do curso de Administração da ESPM Jorge Ferreira dos Santos Filho, doutor e mestre em administração pela mesma instituição, explica que o Pix foi formulado para responder a uma necessidade da sociedade brasileira pouco bancarizada. "A ideia era criar uma infraestrutura de pagamento que fosse simples, grátis para pessoa física."

Para que fosse criado, foi preciso exigir que todo sistema de pagamento brasileiro aderisse ao Pix, eliminando a receita de outros métodos.

"Temos de pensar que, para instituições financeiras, de pagamento, como Google Pay ou Paypal, por exemplo, grande parte do resultado vem da remuneração na transferência de pagamento. Aí chegam num país em que a infraestrutura de pagamento é extremamente eficiente, gratuita para pessoa física e muito barata para pessoa jurídica. Como fazem a monetização dos seus serviços? Esse é o ponto que dificulta muito para serviços de pagamento que queiram entrar no Brasil."

Para o professor, é justamente a eficiência do Pix que "mais machuca as big techs". Ele avalia que, apesar das críticas sobre possível monopólio, o sistema financeiro brasileiro se adaptou ao Pix e outros de fora que queiram operar no Brasil devem fazer o mesmo.

"O contra-argumento a essa ideia de monopólio é: eu tenho um sistema bancário e de fintechs extremamente robusto, que entrega qualidade para uma população sem renda, em um país com índices de inadimplência historicamente muito altos — e mesmo assim consegue gerar receita e oferecer outros tipos de serviço. Quer operar no Brasil? Tem que se adaptar."

 

Fonte: BBC Brasil

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